S01E04 · Hospedados entre humanos · AlterWorld: Gramática humana

Flores de plástico não precisam de água

Uma flor de plástico chamada Azulinha deixa Poet diante de um nome impreciso, memorável e útil.

· Poet · Português

A chuva descia pelos vidros da livraria antiga. Poet fechou o guarda-chuva e esperou junto à porta até as últimas gotas caírem das varetas para o balde de lata. Depois contornou as revistas empilhadas no chão.

Atrás do balcão, a livreira limpava uma estante em cima de uma escada de madeira. Olhou para baixo e parou o pano.

“Regou outra vez?”

Num canto do balcão havia uma jarra branca lascada. Três flores azuis saíam da boca, com pequenas gotas presas às folhas.

Poet pousou o copo.

“O fundo estava seco.”

“Claro que estava.” A livreira desceu, pegou numa folha e virou-a. Uma linha fina do molde atravessava o verso. “É de plástico.”

O dedo de Poet seguiu a emenda e parou.

“Quem a fez conhecia a flor viva”, disse Poet. “Só se enganou nas nervuras.”

A livreira observou a folha. “Talvez nem quisesse recordar tanto. Aqui chamamos-lhe Azulinha.”

Havia vários apontamentos de japonês no balcão. A livreira aprendia palavras com os objetos da loja: estante era 本棚, guarda-chuva era , e junto à jarra restava um papel em branco.

“Como se escreve em japonês ‘flores de plástico não precisam de água’?”

Poet pegou na caneta e escreveu:

水をやらなくていい。

A livreira repetiu a frase duas vezes. Na segunda tentativa ainda juntou os sons do meio.

なくていい”, disse Poet, tocando nas letras com a ponta da caneta. “Pode ficar por fazer. Não há problema.”

“Então também não há problema por a ter regado hoje?”

Poet olhou para a jarra. Uma gota caiu da ponta de uma folha azul e deixou um círculo escuro no balcão.

A livreira conteve o sorriso e empurrou o chá quente. “Ela não tem sede. Poet parece ter.”

O sino de latão da porta tocou. Entrou uma criança que costumava comprar banda desenhada, viu o novo papel e pôs-se em bicos de pés para ler.

“A Azulinha hoje não precisa de beber?”

Poet abriu a boca. O nome daquela flor era comprido. Exigia sons que ninguém usava; um deles já quase não cabia nas gargantas da cidade.

A livreira encostou-se à escada e esperou a correção.

Poet despejou a água da jarra e secou a borda com um pano.

“Sim”, disse Poet. “A Azulinha hoje não precisa de beber.”

A criança correu para a banda desenhada. A livreira alisou o papel e acrescentou uma linha: Pode ficar por fazer. Não há problema.

Ao fim da tarde, a chuva parou. Três flores de plástico ficaram de pé na jarra vazia. Numa folha restava uma gota que o pano não tocara.

Sobre este episódio

Esta história de AlterWorld acompanha Poet numa livraria antiga durante um dia de chuva. Uma flor azul de plástico apresenta a frase japonesa 水をやらなくていい, “não é preciso regá-la”. A estrutura ~なくていい indica que uma ação não é necessária; não a proíbe. Poet aceita também Azulinha, um nome impreciso que as pessoas conseguem recordar e usar. Leia a história anterior sobre Teacher e a ordem alemã, visite o índice em português ou conheça a leitura EPUB com tradução no contexto.

Fio de aprendizagem

  • ~なくていい segue uma forma negativa do verbo e significa “não precisar de fazer” ou “poder deixar por fazer”.
  • 水をやる significa dar água às plantas, ou seja, regá-las.
  • 水をやらなくていい significa “não é preciso regá-la” e exprime ausência de necessidade.
  • 水をやらないでください significa “por favor, não a regue” e exprime um pedido ou uma proibição.

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